O Sonho da infância que virou Intercâmbio
Voltei, Recife! 🌞
Retomo o Ipojuca Science para exercitar a escrita e compartilhar uma série especial de artigos sobre o incrível intercâmbio que vivi na Argentina em 2025.

O sonho de conhecer outras culturas parecia impossível em meio à violência e à desigualdade que marcaram minha infância. Mas esse desejo de “voar” nasceu lá atrás, em 1993, quando o Brasil ainda usava o Cruzeiro. Eu tinha só quatro anos quando, fascinada, vi um avião riscando o céu sobre o telhado da nossa casa, em Campo Grande, bairro da Zona Norte do Recife, e curiosa como sempre fui perguntei a Mainha para onde aquele avião ia. Ela, naturalmente, disse que não sabia. E, diante daquele mistério, eu profetizei: "Um dia, um avião desse vai me levar para São Paulo" - Naquela época, a capital paulista, a 2.664 km de Recife, era o lugar mais distante de que eu já tinha ouvido falar.
A Terra deu 27 voltas em torno do Sol quando, em 2020, segui para o primeiro e único campo do mestrado, lendo fascinada um artigo interdisciplinar liderado pela grande cientista Ana Ladio sobre a percepção dos recursos hídricos usados pelo povo Mapuche em Chubut, na Argentina. Naquele momento, sonhei em realizar um estudo similar no semiárido brasileiro e, um dia, conhecer de perto a beleza daquela paisagem e a sabedoria Mapuche. A pandemia de covid-19 adiou esse sonho. Mas, quase três décadas depois de avistar aquele avião em Campo Grande e cinco anos após a primeira leitura daquele artigo, finalmente voei para uma distância três vezes maior que São Paulo, 6.168 km de Recife, e aterrissei na realidade de um intercâmbio de três meses na inesquecível Bariloche.
Tive a sorte de compartilhar esse período com uma equipe dos sonhos. No time brasileiro, dois botânicos por natureza e líderes natos — a capixaba Letícia Elias e o pernambucano Hermeson dos Santos — me ensinaram a admirar as macieiras que crescem espontaneamente nas calçadas, a enxergar beleza na diversidade taxonômica e a refletir sobre nossas origens africanas. Nas últimas semanas, nosso grupo tupiniquim brilhou ainda mais com a chegada das colossais estrelas de um dos grupos científicos mais disruptivos do planeta, liderados pelo visionário Ulysses Paulino Albuquerque: Washington, Edwine, Aníbal, Marina, Paula, Rafael, Mari e nossos promissores asteroides, Caetano e Luri. Com eles, completamos o número mágico de 13 brasileiros vivendo a experiência única da outonal Bariloche de 2025.
Nossa equipe brasileira teve o privilégio de ser acolhida pelo grupo de etnobiologia liderado pela professora Ana Ladio, uma pesquisadora com longa trajetória em etnobiologia e conservação biocultural, que dedica a vida a compreender as relações entre seres humanos e natureza, inspirando gerações de pesquisadores. Entre eles estão Fernando, engenheiro agrônomo e mestre em desenvolvimento de zonas áridas com apicultores familiares; Catalina, premiada em 2025 com o Schultes Research Award e o Student Award pelo trabalho sobre percepção e práticas adaptativas de agricultores frente às mudanças climáticas; Luciana, doutora em biologia que estuda gênero e o uso de bioinsumos para fortalecer a sustentabilidade dos agroecossistemas; Pablo, que investiga os saberes e práticas de agricultores familiares para a conservação dos polinizadores; Carla, que atua na gestão participativa e na conservação da biodiversidade do Parque Nacional Nahuel Huapi; David, doutor que pesquisa como as plantas contribuem para o bem-estar e a soberania alimentar de comunidades rurais; Melissa, especialista na biodiversidade e resiliência de comunidades agrícolas; e Adriana, pesquisadora do Inibioma que lidera estudos sobre conservação e restauração sustentável de ecossistemas patagônicos.
Me reunia bestinha com estas grandes mentes no lindo prédio do INIBIOMA (Instituto de Investigaciones en Biodiversidad y Medioambiente), que há quase duas décadas é o cenário de pesquisas sobre ecologia, conservação da biodiversidade, macroecologia, mudanças climáticas, sociobiodiversidade e gestão de recursos naturais, que conectam pesquisadores, comunidades locais e redes internacionais na promoção de soluções sustentáveis aos problemas da sociedade. Lá realizamos seminários e oficinas sobre estratégias adaptativas diante das mudanças climáticas. Discutimos temas como conhecimento ecológico tradicional, macroecologia, ética e sociobiodiversidade, sempre conectando ciência, territórios e suas comunidades. Participamos de seminários inspiradores sobre conhecimento ecológico, apicultura, polinização, mudanças climáticas e gestão da paisagem. Nesses momentos, compartilhamos experiências e aprendizados, construindo pontes entre diferentes contextos latino-americanos.
Lembro que no dia seguinte a nossa chegada participamos da Semana Nacional da Ciência Argentina com duas o oficinas participativas sobre as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANs) de Bariloche onde refletirmos como podemos encontrar e consumir com seguranças estas plantas e criamos coloridas mandalas que conectaram os conhecimentos e reflexões dos jovens, adultos e idosos Barilochenhos que passavam no porto naquela quarta-feira outonal. Em maio, logo após a primeira geada do inverno mais quente da história, colaboramos com a execução da oficina participativa com agricultores da Feira Agropecuária Nahuel Huapi e técnicos do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA) onde intercambiamos estratégias adaptativas aplicadas no contexto das mudanças climáticas que fazem parte do projeto de doutorado de Catalina Rico Lenta, avançamos na construção conjunta de extensão sobre pragas hortícolas geradas a partir da tese de doutorado de Pablo Grimaldi e testemunhamos um disputado intercâmbio de sementes e mudas de plantas tão resilientes quanto os próprios agricultores e pesquisadores Barilochenhos. Fui testemunha e participei de uma rede do Sul Global que mesmo enfrentando ameaças socioeconômicas e políticas mostra ao mundo como a colaboração e a adaptabilidade podem nos guiar neste futuro sombrio que assola nosso presente.
E o clima patagônico também marcou este período. Se por um lado, logo na primeira vez que tive a brilhante ideia de secar as roupas do lado de fora da casa, acordei com uma cena surreal: roupas congeladas na varanda a -13 °C, um choque para uma nordestina acostumada ao calor que seca as roupas rapidinho de um dia para o outro nas varandas tropicais. Por outro lado, lembrarei enquanto viver da vista dos lagos cristalinos cercados pela imponente Cordilheira dos Andes — uma paisagem tão arrebatadora que decidi eternizá-la na pele. Mas isso já é assunto para outra postagem. Até lá, viva para realizar seus sonhos que hoje parecem impossíveis mas que um dia podem se tornar experiências inesquecíveis.









Registros da despedida no aeroporto do Recife, oficinas, seminários e a despedida no Inibioma
E se, assim como eu, você também se encantou com o trabalho desses cientistas, acesse os links abaixo e descubra mais sobre tudo o que eles estão construindo.
Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos
https://www.instagram.com/lealabb/
Grupo de investigación en etnobiología de la Patagonia
https://www.instagram.com/etnobiologia.inibioma/
Instituto de Investigaciones en Biodiversidad y Medioambiente
https://www.instagram.com/inibiomaabierto/
Parque Nacional Nahuel Huapi
https://www.instagram.com/parquenacionalnahuelhuapi/
Feria Franca de Agricultores del Nahuel Huapi
https://www.instagram.com/feria_agricultores/
Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria